Existe espaço para religiões de matriz africana na universidade?

A universidade costuma ser vendida como o lugar da diversidade, do pensamento crítico e do encontro entre mundos diferentes. Mas, na prática, será que todos esses mundos realmente cabem dentro do campus? Quando o assunto envolve identidade religiosa, especialmente as religiões de matriz africana, a resposta ainda é cheia de nuances, silêncios e desafios que precisam ser encarados de frente.

A universidade como espaço plural (pelo menos na teoria)

A vida universitária é marcada por debates, descobertas e pela troca constante de experiências. É nesse ambiente que muitos estudantes entram em contato, pela primeira vez, com realidades culturais e sociais diferentes das suas. No entanto, quando falamos de religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, a presença ainda é cercada por estigmas, desinformação e preconceitos históricos.

Mesmo em ambientes que se dizem abertos, símbolos religiosos africanos, roupas tradicionais ou práticas culturais ligadas à fé ainda são, muitas vezes, vistos como algo “exótico” ou fora do padrão aceitável.

Racismo religioso: um problema que atravessa os muros do campus

Não dá para falar sobre o tema sem tocar em um ponto sensível: o racismo religioso. Ele se manifesta de formas sutis e explícitas dentro da universidade, seja por meio de piadas, olhares atravessados, exclusão de eventos acadêmicos ou até dificuldades para criar grupos de estudo e extensão ligados ao tema.

Esse tipo de discriminação não afeta apenas a vivência espiritual dos estudantes, mas também seu desempenho acadêmico e sua sensação de pertencimento. Afinal, aprender e se desenvolver em um ambiente hostil não é tarefa simples.

Falta de informação ainda é um dos maiores obstáculos

Grande parte do preconceito nasce da desinformação. Muitas pessoas chegam à universidade sem nunca terem tido acesso a conteúdos sérios sobre religiões de matriz africana durante a educação básica. O resultado? Estereótipos que se perpetuam e são reproduzidos no ambiente acadêmico.

Quando essas religiões aparecem em sala de aula, geralmente estão restritas a disciplinas específicas, ligadas à história ou à antropologia, e nem sempre recebem o aprofundamento necessário. Isso limita o entendimento e reforça visões distorcidas sobre práticas, valores e significados.

O impacto da formação acadêmica na quebra de estereótipos

Quando a universidade assume o compromisso de ampliar o acesso à informação, ela também contribui diretamente para a desconstrução de estigmas sociais. No caso das religiões de matriz africana, isso significa ir além da abordagem superficial e reconhecer esses sistemas religiosos como campos legítimos de conhecimento, história e filosofia de vida.

Cursos de licenciatura, comunicação, direito, saúde e até áreas exatas podem se beneficiar desse contato mais amplo. Afinal, compreender diversidade religiosa ajuda futuros profissionais a lidar melhor com pessoas reais, em contextos reais, fora do campus. Um professor mais preparado evita reproduzir preconceitos em sala de aula. Um comunicador mais consciente escolhe palavras com mais responsabilidade. Um gestor entende melhor a pluralidade da sociedade em que atua.

Além disso, a presença desse debate na formação acadêmica estimula o pensamento crítico, um dos pilares da experiência universitária. Questionar narrativas únicas, reconhecer saberes historicamente marginalizados e ouvir diferentes perspectivas são exercícios fundamentais para quem está se formando.

Quando a universidade investe nesse tipo de formação, ela não apenas informa, mas transforma. E essa transformação acompanha o estudante muito além da colação de grau, impactando diretamente a forma como ele se posiciona no mundo.

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Saiba mais sobre a importância dos grupos e coletivos de resistências nos espaços universitários. / Foto: Freepik.

Grupos, coletivos e resistência no cotidiano universitário

Apesar dos desafios, estudantes e coletivos têm ocupado espaços importantes dentro das universidades brasileiras. Grupos de estudos, projetos de extensão, semanas acadêmicas e rodas de conversa têm sido estratégias para ampliar o diálogo e promover respeito.

Esses movimentos não apenas fortalecem quem já se identifica com religiões de matriz africana, mas também criam pontes com outros estudantes curiosos, interessados ou simplesmente abertos a aprender. A informação, quando compartilhada de forma acessível, transforma o ambiente.

Representatividade importa (e muito)

Ver professores, pesquisadores e lideranças acadêmicas falando abertamente sobre o tema faz toda a diferença. A representatividade ajuda a quebrar a ideia de que espiritualidade e ciência não podem coexistir.

Quando a universidade legitima esses saberes, ela reconhece que o conhecimento não nasce apenas nos livros europeus ou nos modelos tradicionais. Ele também vem da oralidade, da ancestralidade e da vivência coletiva.

Eventos culturais como porta de entrada para o diálogo

Feiras culturais, apresentações artísticas, semanas temáticas e debates abertos ao público são formas eficazes de aproximar estudantes do tema. Muitas vezes, é em um evento descontraído que alguém tem seu primeiro contato real com as religiões de matriz africana, longe de preconceitos e mitos.

Aqui no HiCampi, a gente acredita que diversidade também se aprende vivendo. Inclusive, vale conferir conteúdos que exploram como a cultura pop e a representatividade impactam a vida universitária, como neste material sobre diversidade no campus.

O papel das instituições de ensino

Não basta deixar que o debate exista apenas por iniciativa dos estudantes. As universidades têm responsabilidade direta na promoção do respeito religioso. Isso passa por políticas institucionais claras, apoio a projetos inclusivos e posicionamentos firmes contra qualquer forma de discriminação.

Além disso, oferecer canais seguros para denúncias e acolhimento é fundamental para que estudantes se sintam protegidos e ouvidos.

Caminhos para uma universidade mais inclusiva

Algumas atitudes simples podem gerar mudanças reais no dia a dia universitário:

  • Inserção do tema em disciplinas de diferentes áreas

  • Apoio institucional a coletivos religiosos e culturais

  • Capacitação de professores e funcionários

  • Incentivo à produção científica sobre religiões de matriz africana

  • Combate ativo à intolerância religiosa

Essas ações ajudam a construir um ambiente mais justo e alinhado com a diversidade que a universidade diz representar.

Respeito não é favor, é direito. Dentro e fora da universidade

Falar sobre inclusão religiosa não é criar privilégios, mas garantir direitos básicos. Todo estudante merece viver sua fé, ou a ausência dela, sem medo de julgamentos ou represálias.

Quando o campus se torna um espaço onde diferentes crenças coexistem com respeito, todos ganham. O debate acadêmico se enriquece, as relações se fortalecem e a experiência universitária se torna mais humana.

Universidade para além do diploma

A universidade não forma apenas profissionais, mas cidadãos. O contato com religiões de matriz africana, quando mediado por informação e empatia, amplia visões de mundo e prepara estudantes para uma sociedade diversa e plural.

No fim das contas, a pergunta não é se existe espaço, mas como cada universidade pode se transformar para que esse espaço seja real, seguro e respeitoso para todos.

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