A cena é quase padrão: a gente estuda com o notebook aberto, o celular vibrando do lado, um vídeo rodando em velocidade 1,5x e mais algumas abas que “podem ser úteis depois”. A nova geração aprendeu a estudar nesse ritmo acelerado, mas a pergunta que não quer calar é: será que esse excesso de informação ajuda mesmo ou está atrapalhando mais do que parece?
Vivemos o tempo da multitarefa glorificada. Quanto mais estímulo, mais sensação de produtividade. Só que o cérebro humano não funciona exatamente assim, e é aí que começa o conflito entre a forma como a geração atual estuda e a forma como o aprendizado realmente acontece.
A era da informação infinita (e da atenção limitada)
Nunca foi tão fácil acessar conteúdos, aulas, resumos, vídeos explicativos e ferramentas digitais. Em poucos cliques, qualquer estudante tem à disposição uma biblioteca maior do que muitas universidades tinham há décadas. O problema não é a informação em si, mas o volume e a velocidade com que ela chega.
Quando tudo chama atenção ao mesmo tempo, nada recebe atenção de verdade. A geração que cresceu conectada aprende a alternar focos rapidamente, mas isso não significa aprofundamento. Na prática, o cérebro precisa de pausas, silêncio e repetição para consolidar o aprendizado.
Multitarefa: mito ou vilão para quem estuda?
Responder mensagem enquanto assiste aula, ouvir podcast enquanto revisa matéria, checar redes sociais entre um parágrafo e outro. Parece inofensivo, mas estudos mostram que a multitarefa prejudica a retenção de informações.
O que acontece é simples: o cérebro não executa várias tarefas complexas ao mesmo tempo, ele apenas troca o foco rapidamente. Cada troca custa energia mental. No fim do dia, a sensação é de cansaço extremo, mesmo sem ter estudado profundamente nenhum conteúdo.
Esse fenômeno está diretamente ligado ao que já discutimos sobre excesso de estímulo e esgotamento mental. Inclusive, já falamos sobre isso em outro conteúdo aqui no HiCampi, mostrando que o cansaço universitário muitas vezes não vem da falta de tempo, mas do excesso de estímulo constante:
👉 https://hicampi.com/o-cansaco-universitario-nao-e-falta-de-tempo-e-excesso-de-estimulo/
A nova geração estuda e aprende diferente, mas não pior
É importante deixar claro: a geração atual não é menos inteligente ou menos dedicada. Ela apenas foi moldada por um ambiente diferente. O acesso rápido à informação mudou a forma de estudar, de pesquisar e até de memorizar.
Hoje, muitos estudantes priorizam saber onde encontrar a informação em vez de decorar conteúdos. Isso não é necessariamente ruim. O problema surge quando não há critério, organização ou tempo para processar o que foi consumido.
Aprender exige conexão entre ideias. Sem isso, o conhecimento vira só mais um dado perdido entre notificações.
Consumo rápido não é aprendizado profundo
Vídeos curtos, resumos prontos e respostas instantâneas ajudam, mas não substituem o raciocínio. Quando tudo vem mastigado, o cérebro trabalha menos. A longo prazo, isso impacta a capacidade crítica, a interpretação e até a criatividade.
Estudar exige esforço cognitivo. E esforço, diferente do que a internet tenta vender, não é algo negativo.
Tecnologia: aliada ou distração?
Não dá para demonizar a tecnologia. Ela faz parte da rotina acadêmica e, usada com intenção, pode melhorar muito a experiência de quem estuda. Plataformas digitais, inteligência artificial, aplicativos de organização e ambientes virtuais de aprendizagem são ferramentas poderosas.
Nós mesmos já mostramos como a IA vem transformando a rotina universitária e a forma de estudar nos próximos anos:
👉 https://hicampi.com/estudar-em-2026-como-a-ia-ja-mudou-a-rotina-universitaria/
O ponto-chave é o uso consciente. Tecnologia sem limite vira ruído.
Como transformar excesso de informação em aprendizado real?
Algumas mudanças simples já fazem diferença:
Definir um tempo específico para estudar sem interrupções
Fechar abas que não têm relação direta com a matéria
Estudar em blocos curtos, mas focados
Revisar o conteúdo em vez de apenas consumir novos materiais
Anotar com as próprias palavras, não só salvar links
Essas práticas ajudam o cérebro a organizar a informação e transformá-la em conhecimento de verdade.

O papel da universidade nesse cenário
As instituições de ensino também precisam se adaptar. A geração atual aprende de forma mais visual, interativa e prática. Aulas expositivas longas, sem diálogo ou aplicação, competem diretamente com o celular no bolso do estudante.
Metodologias ativas, projetos interdisciplinares e uso estratégico da tecnologia tendem a engajar mais. Não é sobre “facilitar”, mas sobre tornar o aprendizado mais significativo.
A ansiedade de estar sempre atrasado
Outro efeito do excesso de informação é a sensação constante de que falta tempo. Sempre existe mais um vídeo para assistir, mais um artigo para ler, mais um conteúdo “essencial”. Isso gera ansiedade acadêmica e uma falsa ideia de insuficiência.
A geração atual estuda muito, mas muitas vezes sente que nunca é o bastante. Aprender a filtrar virou uma habilidade tão importante quanto estudar em si.
Menos conteúdo, mais clareza
Selecionar boas fontes, confiar no próprio ritmo e aceitar que não dá para consumir tudo são passos importantes. Aprender também é saber o que deixar de lado.
Então, a geração que estuda com 12 abas abertas aprende menos?
Não necessariamente, mas aprende diferente. Quando o excesso de estímulo domina o processo, o aprendizado tende a ser mais superficial. Quando há foco, intenção e estratégia, a tecnologia vira aliada e potencializa resultados.
O desafio da nova geração não é falta de acesso, é excesso. E aprender a lidar com isso faz toda a diferença na vida acadêmica.
No fim das contas, quem estuda com consciência, mesmo em meio a tantas distrações, consegue transformar informação em conhecimento. E é isso que realmente importa para essa geração que vive conectada, mas ainda precisa aprender a pausar.
